domingo, 19 de abril de 2015

espera

Acho que a espera é inerente à minha existência.
Parece que sempre existi nesse estado ininterrupto de esperar.
Esperar pelo outro, na saudade.
Esperar pelo o quê, na falta.
Esperar pelos dias ensolarados, na noite fria.
Esperar pela amizade, na traição.
Esperar pela compaixão, na indiferença.
Esperar pelo amor, na carência.
Esperar pelo amanhã, no hoje.
Esperar pela vida, no tédio.
Esperar esperançosamente pelo outrem que nunca veio e que a própria vida duvida que virá.
Esperar sem nunca ter sido esperada é só a vida sendo hipócrita mais uma vez.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tertú e o Lago

Texto realizado para composição do projeto final de Imagem Técnica I. Além do texto que segue, foram também realizadas intervenções urbanas nos viadutos da Av. Antônio Carlos e um registro audiovisual de todo o processo de produção. Projeto realizado em parceria com o artista DagShow Silva, também belorizontino.

Partamos do principio de que toda realidade é subjetiva, maleável à nossa vontade, mutável, e que, aplicando-se a força, a pressão, na medida certa e necessária, o mundo se transforma, a vida emerge do caos que norteia nossos dias, e o futuro parece reluzir com o sol da possibilidade. Imagine que todo o mundo, toda a nossa realidade vivente, todos os nossos gozos e nossas dores, sejam um lago. Plano, imóvel, pesado. A água não reluz a energia do sol, mas a traga sedenta com o seu negrume líquido. Tertú, tem oito anos. Hoje ele não pôde ir à aula, seu pai homem correto, honesto e trabalhador, acordou com dores no corpo e não pôde ir trabalhar. A família de Tertú, assim como a maioria da população mundial, depende exclusivamente do suor do trabalho para sobreviver, comer, se vestir. O pai de Tertú trabalha como pintor de paredes. Ele pinta letreiros de lojas, paredes de obras, faixas de amor, formatura e eleição. Acorda às 5 da manhã de segunda à segunda, dá bom dia ao sol, toma seu café simples e modesto, passado pela esposa mirrada e tímida, que olha a tudo e a todos com um medo tão primitivo que parece ser algo nato dela e não herdado da vida. Tertú só encontra com o pai doze horas depois de tê-lo visto sair pela porta durante o amanhecer. Ele traz as roupas sujas, coloridas, o ombro caído e um esgar cansado nos lábios. Tertú conhece bem o pai que o criou. Sabe das manias, dos trejeitos, dos franzir de sobrancelhas, do coçar da garganta. Tertú adora o cheiro de tinta que chega com o pai, lhe traz uma tranquilidade que ele só irá reconhecer quando sentir, pela ultima vez, o cheiro de tinta e aguarrasa ao caixão do pai baixar na terra com a infinitude da morte. Tertú não conseguira ficar em casa com o pai deitado na cama, acamado, fraco, indefeso, com o cheiro do ranço da cama de um doente. Tertú descobrirá também que foi aquela a primeira vez que o horror passou pela sua mente. Seu pai estava doente, com dores no corpo, precisava apenas de repouso, mas para Tertú que não encontrava no ar o cheiro que sempre o reconfortava, que lhe dava chão, calor e amor, aquilo era a morte. Ele, com seus olhos, inocentes e crus, quase podia ver o contorno da morte na cortina puída que descia ao lado da cama do pai enfermo. Se horrorizava com as nesgas de sol que passavam pelos seus rasgos e iluminavam o rosto de seu pai com cautela, como se o céu ainda estivesse tímido em levá-lo. Ao encontrar o pai na situação em que estava e a mãe com o horror estampado em cada respiração e resfolego, Tertú saiu de casa de supetão, decidido, perdido, e louco. Já se percebia nele toda a fúria da personalidade sólida que viria a ter e que respaldaria seu caráter quando fosse o seu caixão a ser baixado na terra. Andou sem rumo, confundindo o chão com as lágrimas e a loucura com o sonho. Ele queria com toda a força que possuía no ímpeto dos seus oito anos ser capaz de fazer alguma coisa, de mudar uma situação que lhe parecia irreversível e inevitável. Ao seu pai restava a sorte, o destino, pois os meios do qual o mundo é cheio, não eram acessíveis à eles, habitantes limítrofes de uma sociedade à beira eterna da evolução. Tertú andou até sentir o solo mudar debaixo de seus pés, a grama crescer e pinicar-lhe a panturrilha e o sol raiar sobre sua cabeça. Ele sentou na primeira pedra que achou, enfiou a cabeça entre os joelhos e deixou-se soluçar, pedir, orar, por qualquer coisa, qualquer solução, qualquer impossível. Por que ELE não podia fazer nada? Ele olhou para as mãos. Ele tinha mãos capazes, com cinco dedos inteiros, que brincavam na terra, construíam fortalezas de pedrinhas e pintavam desastradamente a parede externa da casa. Essas mãos sempre tão úteis e amadas por Tertú, receberam de uma só dose todo a aversão e loucura que receberiam na vida. Elas eram falhas e incapazes. Tertú não sabia pintar, nem trabalhar, só brincar! O que seria dele e de sua acuada mae? Tertú apertou a terra do chão com toda a força que possuía, a terra foi expulsa de reduto tão apertado e as unhas se cravaram na carne. Ele chorou. De dor, de desespero, de incapacidade. Sentiu-se doente, mas não como o pai. Sentiu-se doente de loucura, sentiu-se doente por conter no peito de oito anos uma angústia atemporal. O céu estava lindo, azul. Azul da cor dos olhos de sua mãe, límpido e puro. Mas forte, implacável e decidido. Quando seu olhar baixou sobre a Terra, ele se encontrou sentado na beira do lago que seu pai o levava, quando dava, para pescar piabas.
O lago parecia um espelho verde-musgo. Nem mesmo uma brisa quebrava sua solidez. Tertú nunca vira o lago assim, tão quieto e parado. Parece que havia pescado todas as piabas, deixando o lago seco de vida e futuro. Tertú não gostava da superficie petrificada que via. Seu interior e âmago estavam em tal rebuliço de revolta que ele queria que o mundo encenasse sua dor. Queria que lágrimas de gelo caíssem do céu, que a copa das árvores se destroçassem com o vento, que as montanhas tremessem e se abrissem em abismos infinitos de magma e rocha, tal qual como o inferno.
Toda a sua loucura, toda a sua dor, seu desespero, encontraram o ponto de escape na coisa mais simplória da história do mundo, uma pedra. Tertú não hesitou, não respirou, se decidira. Não consegui ver saída palpável para a situação de seu pai, já havia confiado o destino à fé que sua mãe lhe educara a ter, a fé na qual os pobres, os enfermos, os sofridos, os desesperançados, encontram forças para seguir em frente com a vida cruel que levam. 

Tertú sentiu o calor da pedra por apenas alguns segundos, enquanto seu corpo se esticava para arremessá-la o mais longe de toda a sua loucura possível. A pedra voou o mais longe que já havia voado pelas mãos de Tertú, mas não alcançou nem 2/3 daquela imensidão espelhada.

A pedra caiu na água com ímpeto juvenil de uma criança de oito anos que ainda acredita na vida, apesar de temer a morte, e que, na inocência cálida de não conhecer o mundo, ainda confia no melhor, no futuro, e na força que existe numa simples pedra de ondular a superfície de um imenso lago. 

domingo, 6 de julho de 2014

Batom (incompleto e nao revisado)


Lisbela estava feliz esta noite. Sua filha andrógena havia chegado à uma resolução: não iria se aventurar na miséria da desolação na cidade  em que cursara faculdade por certo tempo. Lisbela, como toda mãe, odiava com toda a força que possuía em sua alma calejada o marco da confusão sexual na vida de sua filha. Rio Cordas. Ela sonhava com sombras e vultos percorrendo as ruas daquela cidade deserta que tivera sua paz violentada pela fúria universitária, becos que não existiam povoavam sua mente com a prostituição chula de interior e tráfico dos mais peçonhentos entorpecentes, estes também frutos da sua imaginação aterrorizada e da consciência pastosa e pesada que a alimentava.
Sua filha, zelada, amada, engomada, havia sido entregue de mala e cuia àquela cidade do pecado pelas suas próprias mãos. Quando se lembrava da época de mais impasse da sua vida, sentia o gosto de bile lhe queimar a língua e corroer os dentes. Ela havia falhado. Como recompensa pela melhor das intenções, por ter sido uma mãe passiva, subserviente, atenciosa, que havia investido na cria toda a força que possuía, havia recebido em casa, uma filha cuspida por Sodoma, traumatizada, violentada, drogada, em suma, desiludida com a própria existência.
Quando os dias, logo depois os meses, foram se passando, Lisbela começou a se lembrar do cachorro abandonado que vivia com eles. No natal de 2006, sua zelada filha havia pedido um cachorro como presente. Lisbela detestava cachorros, gatos, coelhos, ratos, papagaios, cobras, sapos, e todos os outros bichos que pudessem vir a ter algum tipo de relação com humanos fora de suas gaiolas. Então, quando o introspecto  Sr. Pedro, seu marido e provedor, surgiu, muito sorrateiramente, com o presente em questão trancado no banheiro da relojoaria em que trabalhavam, sua amada filha já estava dando choques, quase que literalmente, de tão elétrica sua alegria. Este, por sinal, foi outro momento de impasse pelo qual passou e que, por sorte do acaso, não falhou. Ela permitiu que o presente, então chamado Tex, ficasse.
O filhote era desengonçado e abobado mas era o único que estava presente quando fazia o almoço, lavava as vasilhas, as roupas, a casa. Ele e seu olhar sonso a acompanhavam por todo o seu percurso de doméstica sem hesitação. Sim, ele dava trabalho, Sr. Pedro e sua filha falharam em educá-lo, e ele agia como se toda a casa fosse seu banheiro. Assim como ele a acompanhava nos cuidados da casa, ele também a acompanhava no seu cuidado para com ele. Quando ela lavava toda a área externa da casa, ele se abrigava em lugar seguro da agua, deitava confortavelmente, e a observava com seu olhar parado.
Quando eles se mudaram para um apartamento, Tex foi delegado à irmã de Lisbela, Soraia. Soraia era a tia fanática da família. Quando ela amava, doava inteiramente sua força vital para o que quer que amasse. Ela havia sido fiel temerária das principais e maiores igrejas evangélicas, obreira fervorosa da primeira igreja católica a ser construída na cidade, candidata implacável à uma cadeira da Câmara Legislativa, e uma mãe completamente louca. Ela subia a cidade inteira, sempre muito atarefada em cima dos seus sapatos de salto alto vermelhos envernizados, fosse entregando evangelhos, santinhos cristãos e santinhos eleitoreiros, ou simplesmente resolvendo um problema inexistente e urgentíssimo para algum de seus filhos, ou para todos eles.
Lisbela não ouviu mais falar em Tex - de quem até sentia falta naquele apartamento abafado e silencioso - por um bom tempo, sua filha havia se esquecido dele há tempos idos. Até que, o não-reconhecido companheiro, foi atropelado por um ônibus. Soraia, sempre atarefada, havia esquecido a porta aberta ao sair e o aventureiro e inexperiente caubói, escapou para a cacofonia das ruas. Lisbela se preocupou de tal forma que não acreditou em si mesma quando se viu ligando, por três semanas, uma vez por semana, para a irmã com quem mal conversava para saber notícias.
Depois da ladainha inicial entre uma conversa de duas irmãs que possuíam mais onze irmãos, Soraia contou em detalhes o trabalho que o cachorro estava lhe dando. Ele, aparentemente, havia voltado doido, segundo ela, do acidente. O cachorro que tinha sido atropelado como quieto, parcimonioso e abobado, voltara como um cachorro agitado, trabalhoso e incontrolável. Soraia estava deixando de exercer sua função - fritadora de pastel - de extrema importância na barraquinha de Santo Antônio para tentar cuidar do cachorro louco. Tex havia quebrado a pata traseira direita, pelo menos era isso o que desconfiava Soraia que nem o havia levado ao veterinário. Ele mancava, muito.
Lisbela passou semanas muda quanto à preocupação pelo seu companheiro ferido. Uma preocupação que só reconheceu quando sentiu o alívio de resolver o problema. Tex voltaria a morar na casa que morara antes, com seu outro irmão Bernardo. Ele era um homem sozinho, alcoólatra, arrependido de absolutamente todas as escolhas que tomara na vida. Era casado por temporadas com mulheres várias. Sua casa parecia uma hospedaria de mulheres infelizes com as próprias vidas que o usavam como uma boia salva-vidas, uma nova chance, uma porta para um futuro melhor. Só que a boia era furada, a chance era um trote e a porta não tinha portal, se sustentava em pé com o próprio peso e, ao menor toque, pressão, sopro, caía. Tex foi bem recebido por Marcilania, uma loira sulista com os olhos mais azuis que o céu de Junho. Ela foi a temporada mais longa de todas. Ela era linda.
Tex se recuperou, apesar de mancar pelo resto da vida quando correr. Ele era agora um cachorro saudável, pulguento e feliz. Realmente feliz. Ele parecia saltitar e não andar. Lisbela gostava de manter esse pensamento em mente quando o via correr, apesar de sua filha sempre ter afirmado que era um efeito sádico proporcionado pela fratura mal curada dele.
Lisbela havia voltado pouco tempo depois de Tex para a casa na qual os dois se conheceram. Desde que haviam morados todos juntos muitos anos se passaram. Ela viera sozinha com o marido, a filha não mais desflorava - de maneira muito estranha, diga-se de passagem - para os dozes anos, estava agora sendo tragada pela podridão de Rio Cordas, e encontrara Tex ali, como sempre estivera, só que com outro dono. Tex agora só estava presente quando requisitado. E, quando Lisbela não se lembrava dele, ou seja, ninguém mais se lembrava - seu dono, assim como a irmã, não era muito sociável com animais, e o marido e a filha eram indiferentes ao velho -, surgiam poças de xixi exatamente no meio do portão que o separavam da antiga família.
Lisbela sempre pensava nele como no cachorro abandonado. Ele não havia sido efetivamente abandonado, é claro. Era alimentado com a ração do gato da filha, e agraciado com pedaços de pão esporádicos que ganhava de Lisbela, a cada quatro meses e meio era recolhido em casa na hora do almoço e devolvido ao entardecer completamente pelado e sem pulgas.
Tex parecia aquela bola velha que ficava no quintal, vez ou outra, quando tomavam ciência dela, quem quer que fosse, dava uma rebatida no muro e tentava uma embaixadinha. Tex era aquela bola que estava sempre ali, invisível à mente ocupada, inconveniente ao estranho medroso e companheiro à alma solitária.
Lisbela via em sua filha o cachorro imaginário que vivia sem suas memórias e se recuperava do atropelamento com ímpeto desmedido e sem direção. Rio Cordas havia cuspido em sua casa a sua obra mais prima de todas, seu zelo, seu esforço, sua alma. E ela se corroía em bile ao pensar que fora mestre-de-obras de todo o acontecido. Ela não sabia o que tinha se passado com sua cria na cidade do pecado, mas seu ácido arrependimento não necessitava de porques para queimar.
Ela estava sublime, andando pela casa, conversando alegremente, pensava que, com o marido e a filha, mas, na verdade, sozinha. E tentava não demonstrar em absoluto sua alegria e animação com as noites de sono que teria pela frente com sua filha debaixo do seu teto, em respeito à resolução que tomara por conta própria.
Sua filha, sempre tão libertária e revoltosa, não iria mais viajar para a cidade do pecado. Amanhã poderia ser segunda, Lisbela levantaria animada com os trabalhos domésticos do dia e agraciaria Tex com um pedaço de pão velho.
Ela só se deitou para dormir depois que a resolução havia sido completamente firmada pela desolação da filha, estendeu o primeiro cobertor, branco com listras azuis, e se deitou.
Chamou pela filha da cama. E a pediu encarecidamente para que a cobrisse.
Quieta para que a mãe não percebesse seu estado alterado e encarasse seu silêncio como pesar pelos planos desfeitos, ela estendeu a segunda coberta, mais velha que ela mesma e só retirada do armário em tempos gélidos.
  • Quando eu morrer e estiver para ser enterrada, eu quero estar de batom... - comentou Lisbela, tentando fazer graça para a filha.
  • Ah é? Qual cor? Vermelho, roxo, rosa? - riu a filha, essas tentativas da sua mãe eram tão absurdamente raras que arrancavam risos de alegria e não de graça.
  • Rosa, bem clarinho. - respondeu ela, como se passasse um batom invisível nos lábios.
  • Blush? Sombra? - desdenhou a outra.
  • Não. Blush, não. Carrega demais. Quero só esse protetor que acabei de passar. Ele da um tom saudável pra pele. - respondeu ela, desencavando o protetor dos cobertores dobrados ao lado.
  • Ah, sim, pode deixar. - comentou a filha, risonha, enquanto estendia a terceira coberta, super fina, surpreendentemente quente e dificílima de dobrar, por cima da mãe.
Ela estava há algumas semanas sem pintar a raiz branca do cabelo que crescia implacavelmente com o passar dos seus quarenta e nove anos. Seu cabelo, que levara uma vida inteira para crescer até os ombros, exibia uma cor de ameixa cintilante e os fios brancos brilhavam e reluziam como mechas de prata. Seu rosto inteiro havia se iluminado com aquela ousadia que temia ser incoerente e não usual para sua idade. Somente agora, após vinte e cinco anos, toda uma vida, gasta em devoção à família, ela havia começado a tirar o tempo para ponderar sobre si mesma, sobre o que sempre quis e o que conseguiu. Sua alma calejada falava através do seu olhar sábio e acuado, leitoso pelos calos que sofrera; e através das rugas que chegaram mansamente e já começavam a formar um finco permanente entre as duas negras sobrancelhas de águia.
  • E tem que tirar minhas cutículas! - enquanto a filha saía e apagava luz.
  • Ah, sim, sem problemas. Não esquecerei nunca das suas cutículas! - desdenhou a filha enquanto entrava no próprio quarto e fechava a porta.
  • Mas sem esmalte! Cutículas sem esmalte! - ela ouviu Lisbela gritar pela última fresta.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Um brinde.

Passei por um hiato.
Voluntario. Sempre voluntario.
Não são todos?!
As palavras me vinham. Perfeitas. Fluídas. Insípidas. Virgens.
A Virgindade é tão cálida, quente, aconchegante. Não queria me livrar dessa. Voluntária. Minha.
Minha. De minha posse. Meu domínio.
Minha.
Quão saborosa é essa palavra, não?!
Minha. Quase posso senti-la na minha língua. Escorregadia, densa, pastosa.
O que é de nossa posse parece melhor simplesmente por isso. Por possuirmos.
Não queria desvirginar minhas palavras. Elas pareciam tão melhores sendo apenas minhas. Virgens ao olhar alheio. Ao julgamento. Ao perigo de serem de outrem.
Expeli-las parecia quase um sacrilégio ao calor que me acalentava o peito por te-las só pra mim. Eram as únicas que dependiam de mim, unicamente e exclusivamente de mim, para não serem mais minhas. A responsabilidade residia somente em mim. Esse risco não me apetecia em absolutamente nada. Era um amargor nada saboroso ou desejoso como o de um uísque.
E cá estou a saborear esse amargor, que engulo com o uísque que agora bebo, sem gelo e com um cigarro nos dedos.
Hoje foi um dia amargo. Melhor amargar tudo como se deve, completamente.
Hoje não me afasto da fumaça impregnante do cigarro. Hoje quero feder. Feder à álcool, à tabaco, à decepção.
Ao amargor, um brinde!
Vamos louvar o que é inevitável, vamos louvar ao que é inerente à vida e a amarga com maestria.
Decepção, um brinde à você, minha companheira de toda vida, cuja presença nao decepciona e cujo gosto aprendi apreciar e degustar.
Hoje andei pelas ruas a sua procura. Virei a cabeça a cada esquina, a cada sinal, a cada passo. Precisava, com uma urgência antes desconhecida, de degusta-la.
E agora a vejo chegar, na carruagem negra e reluzente que conduz com gloria, ao meu encontro e ao do meu uísque.
Obrigada, companheira, por comparecer quando outrem se recusava.

Vamos lá, puxe uma cadeira, sente-se, fique à vontade e banhe-se no amargo sorriso com que a recebo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Perco-me em labirintos a procura de um assunto. Qualquer assunto.
Falaria de césares e párias, de montanhas e cachoeiras, de arte e de futilidades, discutira polêmicas sem nem ter opinião formada, leria artigos do que não concordo e escutaria bandas das quais não gosto.
Um especialista me tornaria sobre o que quer que quisesse conversar.
Só para sentir que, durante nossa pequena troca de palavras, sua atenção está em mim.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Certa vez me apaixonei pelo impossível.

Sabe aquele impossível realmente impossível? Que mesmo depois de noites em claro, lágrimas vertidas, cartas reviradas, conselhos misturados e maços e maços de cigarros fumados não tinha se tornado menos impossível? Um impossível que não tem nem por onde começar a torná-lo possível? Um impossível por natureza, como um pássaro que nasce pássaro e não lhe é possível virar morcego?

Então, exatamente esse tipo de impossível que lhe revira a alma e a cama junto, que lhe ocupa a mente e a vida, que lhe cansa a vista e os dias, que lhe mata aos poucos e incessantemente.

Creio eu, tenra em minhas experiências, que o impossível é, por si só, apaixonante. Ora, sem amores impossíveis onde estaríamos agora? Em uma sociedade sem poetas, sem artistas, sem tragédias. Na qual não se sente a angústia que é não poder tocar a pele que tanto anseia, não sente a dor, quase tangível, de não poder beijar os lábios que tanto deseja.

Vivemos em um mundo imediatista. Tudo é para agora. Tudo. Paciência parece ser virtude dos tempos em que minha avó precisava andar 5 horas de carroça para ver seu pretendente, 5 horas que passaria suspirando e esperando ansiosamente.

Não existe mais aquele jogo da sedução, do conquistar, do se encantar. Não se brinca mais com os olhares, nem com os bilhetes. O galante, não mais galanteador, vai direto ao ponto. Aborda seu amor de modo direto, inquisitivo e imediato. É quase um "agora ou nunca" do amor, "ou vai ou racha".

Nesse mundo completamente deturpado de sentimentalismo, o impossível é exatamente aquilo que grita à alma. Que faz a diferença. Que dá um gostinho de quero mais aos momentos.

Você sorri involuntariamente quando troca um olhar com o impossível. Um novo sol parece nascer no seu dia quando tromba com o impossível no corredor. Você quase ri em júbilo quando escuta o impossível gargalhando deliciosamente. Você pega o ônibus errado só para sentar ao lado do impossível na volta pra casa.

Como não se apaixonar pelo impossível? Não sei. Creio eu que seja impossível.

Me é impossível sentir seus lábios espertos, me é impossível passar os dedos pelo seu cabelo misterioso, me é impossível sorver do perfume da sua própria pele, me é impossível saber o gosto do seu suor, me é impossível rir da sua nua timidez sob meu olhar perscrutador.

Você me é impossível. E por isso, talvez apenas por isso, me seja tão apaixonante.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Felicidade requer coragem.

Infeliz é aquele que mergulha nos próprios medos.
Que abraça a inércia como uma velha amiga.
Que se acomoda nos lençóis do fracasso para uma soneca eterna.
Que deixa o tempo apagar os sonhos mais proibidos.
E que diz sentir o que não é capaz de demonstrar.
Não se sinta melhor nem pior que ninguém.
Você é único. O que você tem a oferecer é único.
Seus olhos só você têm, seu olhar, seus lábios, seus gestos e trejeitos, sua história de vida, sua forma de raciocínio, suas manias, seus sonhos e ambições.
Você é um conjunto único, completo e capaz. Perfeito em sua complexidade. Infindável em seu potencial.
Jamais existirá outro ser igual a você por mais parecido que possa ser.
Então, valorize-se. Valorize ao outro. Valorize as diferenças.
Não faça comparações. Não permita ser comparado.
É impossível comparar uma unicidade com a outra.
Não seja medíocre ao querer se encaixar em padrões tão superficiais e sem significados. Padrões temporais e inconstantes. Padrões que ferem, discriminam, insultam, repelem, afastam.
Seja único. Nem melhor, nem pior.
Apenas único.
Você não se cansa?
Você não se cansa das futilidades? Das mesquinharias? Do consumismo exacerbado?
Do ciclo vicioso em que vivemos de: não termos o bastante e por isso não sermos o bastante?!
Você não se cansa dos mesmo assuntos? Do mesmo enredo que sua vida segue, seja no ponto de ônibus, na fila do supermercado, na academia, na livraria?
Você não se cansa de viver com uma viseira moral e criativa? De ser incompleto culturalmente?
Você não se cansa de sobreviver através dessa sociedade ao invés de viver seus anseios como bem entender?
Você não se cansa de ser medíocre? De ser covarde?
Você não se cansa de aceitar?
Você não se cansa de ser apenas um expectador em sua própria vida? De não ter forças nem para trocar de canal?
Você não se cansa de não viver? De não sentir? De não ser?
Você não se cansa?

domingo, 8 de dezembro de 2013

A brisa soprava suave.
A Kombi continuava estagnada.
E eu, ali, continuava diferente. 
Não simplesmente diferente no sentido de ser diferente.
Mas no sentido de continuar diferente, mudando à todo momento.
Constância na mudança.
O mudar sendo constante.
O não-permanecer constante.
A constância na mudança.


Sempre serei eu mesma, mas nunca serei a mesma.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A angústia parece ser um estado de espírito inerente ao ser humano.
Toda vida parece ser angustiada.
O homem possui um sofrimento que advém da sua própria existência e consciência de si mesmo.
Consciência de que, no final das contas, não é tão diferente assim do cachorro que vaga pelas ruas sem rumo.
Consciência de suas limitações terrenas quando vê um pássaro voando sobre sua cabeça.
Consciência de que por mais que faça, por mais que grite, por mais que crie, nada mais é que um indigente nas páginas da História.
E que, até mesmo a História, sua própria criação, nada mais é que finita perante ao Universo.
A insignificância do homem perante ao Todo é tão aterradora que o homem vaga pelo mundo angustiado.
Em sua busca desenfreada pela significância, o homem cria deuses que justifiquem o que lhe foge à compreensão, constrói sistemas que lhe deem um pseudo-objetivo de ser, inventam novas tecnologias no intuito de se sentir mais dono de sua pequena verdade.
O homem entra em consonância com o Universo somente através da Arte.
Quando toca, quando pinta, quando esculpe, quando canta, o homem se torna um conduíte de toda a grandeza do que é exterior à ele.
Mas, ainda assim, até mesmo a Arte, que é a forma do Universo se mostrar perante à nós, à nossa insignificância, se torna obsoleta ao ser tão finita quanto nossa própria existência.
Chegará o tempo no qual o homem deixará de existir. E o Universo nada mudará com isso.
O homem, em sua vã ignorância perante à grandeza do Universo, é tão efêmero quanto a vida que julga comandar.
O homem é o único ser conhecido por ele mesmo que vive com consciência de viver, que atribui significado à sua própria insignificância.
E essa consciência o angustia, pois ele é sem ser.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Agenor vivia em estado constante de agonia.
Gemia ante a escuridão que ocupava sua mente.
Debatia-se contra as amarras invisíveis que cegavam sua arte.
Parecia que a própria Terra prendia sua inspiração na lava que continha em núcleo.
Desde que seus pensamentos e anseios se viram livres de sua paixão por Ella, ele estava em um constante hiato.
Era um hiato de paz. Calmaria. Plenitude.
Um hiato de arte.
As Artes pareciam tê-lo abandonado à própria sorte. Vagando sem rumo em um mar de desesperança.
Não conseguia mais externar a beleza do que sentia.
Não conseguia mais descrever o que antes enxergava na vida.
A vida não deixara de ser bela. Ele apenas não enxergava a beleza que nela havia.
Seus olhos estavam daltônicos devido a sua mente sã. 
Sã da embriaguez da paixão.
Agenor não era infeliz, muito menos feliz. 
Ele vivia em hiato.
Hiato em não amar.
Era um boêmio sem dinheiro para o drink da esquina, era um ditador sem a frieza do poder que continha, era um camaleão no vácuo do espaço - incapaz de se fundir ao fundo de astros.
Agenor era um artista sem paixão.
Uma vela apagada em plena escuridão, sozinha, fria e sã.
O drink que bebia era fiado, a arte que queria era perdida.
Ele olhava o copo da embriaguez, querendo beber dali o que bebia da paixão.
Mas como não era possível:
- Garçom, me traz mais um copo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Crônica I

Quando cheguei naquela cidadezinha de interior, me encantei por aquele céu límpido e imenso. As noites eram iluminadas pelo brilho de incontáveis estrelas mesmo quando a lua resolvia tirar férias.
Os moradores eram simples, puxavam o r e chamavam um ao outro pelo primeiro nome. Extremamente receptivos, sorriam até mesmo aos estranhos estudantes que lá chegavam, ansiosos para exercerem a nova função de universitários.
Era estranho viver em uma cidade tão pacata em relação à Grande BH. Trânsito não parecia ter chegado lá ainda. Faixa de pedestre vi somente uma e em uma rua interditada há tempos atrás. O shopping era uma grande loja que vendia desde sapatos, botinas, relógios, meias à calcinhas, brincos e roupas de cama.
Foi naquela cidade de interior que aprendi a valorizar a calmaria de um dia no qual não se escuta uma buzina sequer. Naquela cidade, tão subestimada por olhos estrangeiros, residia um pouco do segredo para a felicidade: calmaria.
Calmaria para andar, calmaria para falar, calmaria para sorrir. O sorriso dos nativos - como os universitários chamavam os moradores - era lento, parecia surgir de dentro da alma com manha, preguiçoso em vir à tona, mas fiel em seu objetivo. O riso deles era fácil e aconchegante. Riso de gente que não sabe o significado de estresse. Delicioso. Lá eu me estressava com a lentidão das coisas.
Todos os nativos possuíam uma certa arte no falar. Vindo deles era natural, correto, esperado.
Eles não só puxavam o r, mas possuíam seu próprio modo de organizar as sentenças. Tinham um gosto especial pelos pronomes oblíquos. Só depois de muito tempo fui perceber que falávamos de modo diferente, de tão natural era o sotaque vindo deles.
A expressão que me chamou atenção adveio de uma situação peculiar.
Lá estávamos nós, universitários mais que dispostos - não pergunte a que -, socializando em uma reunião - vulgo farra -, quando uma das nossas amigas nativas veio reclamar das investidas de um certo rapaz.
- Tô eu lá, quietinha na fila do banheiro, o sujeito já vem me encostando - ela reclamava.
Aquela expressão me assustou. "Me encostar". Peculiar. Pude imaginar perfeitamente o certo rapaz segurando-a pelos braços como se ela fosse uma boneca de trapos e a encostando na parede, como se encosta uma vassoura, ou uma tábua, ou qualquer outro tipo de coisa que precise ficar encostada para ficar em pé - que, de certa forma, era o caso dela depois das diversas ingestões alcoólicas.
Depois disso percebi que todos aqueles sorrisos que me receberam de modo tão caloroso, falavam todos do mesmo jeito: vou te encostar, chegou me encostando...
E por mais que a imagem da vassoura encostada na parede sempre me viesse à mente quando ouvia essas expressões, eu conseguia abstrair um sentido diferente entre te encostar e encostar em você. A primeira era específica ao contato de uma pessoa com a outra.
Os nativos conseguiram mudar a estrutura da sentença e com isso atribuir um novo significado a ela. Um significado específico atribuído à uma situação específica num contexto específico.
Era lindo. Era arte no falar.
E lá ficava eu, nas reuniões sociais, não querendo que alguém encostasse em mim, mas que alguém me encostasse.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desfaçam-se de seus pré-conceitos.
Limpem-se de suas pré-concepções.
Livrem seus olhos do véu da incompreensão.
Abram a mente.
Não busquem igualdade, busquem aceitação das diferenças.
O outro não é um espelho no qual deve se encontrar.
O outro são as possibilidades de caminhos que você poderia ter tomado. 
O outro lhe é incompreensível por não ser você, não por ser o outro.
Aceite o medo que tem do desconhecido e seja corajoso para desbravá-lo de braços abertos.
Tenha sede pelo desconhecido e aceite que, somente nele, a Redenção se encontra.
A tristeza que me toca não advém da impossibilidade de futuro.
Já me acostumei com o nosso impossível. Vivo dele.
A tristeza que me consome, não deixa meus risos virem à tona, é mais cândida, profunda.
É uma dor crônica, não latente.
Todas as sensações se adormecem nesse lago opaco de lamúrias.
Lamúrias não pela impossibilidade. Já lhe disse, vivo dela.
Lamúrias por não ter externado toda aquela loucura que sentia.
Lamúrias por não ter mostrado ao mundo o quanto te amar foi belo.
Lamúrias por não ter gritado toda a ternura, a necessidade, o desejo dos dias ensolarados.
Lamúrias por ter que ouvir os mesmos gritos vindos de outros lábios.
Lábios que tocam o que antes era meu. De minha posse. Meu.
E que agora só existe na impossibilidade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Seu pai estava extremamente intrigado com a recente relação de seu filho com a vizinha da frente.
Ele passava o dia ruminando sobre o que os dois tanto conversavam incessantemente. 
Arranjavam desculpas para se encontrarem na esquina e lá ficavam, por horas a fio, discorrendo sobre o que apenas o mais imaginativo dos homens poderia imaginar.
Desde que estavam livres das obrigações diárias, fosse dia, fosse noite, fosse chuva ou fosse sol, lá estavam os dois a conversar.
Na esquina. No portão. Encostados no muro. Ou apenas em pé no passeio. 
Era sempre possível vê-los ali, sempre tão intensos um com o outro em puro papo.
Aquela garota vizinha deveria ter um repertorio de assuntos bem abrangente, o pai pensava, era a única explicação.
E além de saber sobre assuntos variados, ela provavelmente também saberia à fundo cada um deles, de tão inesgotáveis que eram as conversas.
Até que um dia, os assuntos pareceram ter findado. Os encontros foram escasseando até se tornarem raros e, logo depois, extintos.
O pai então, após passado um certo tempo de lamuriosas saudades, resolveu perguntar ao filho o que tanto lhe intrigava.
O filho respondeu que, diferentemente das impressões do pai, a garota vizinha possuía uma gama de assuntos extremamente simplória.
O pai, mais intrigado ainda, perguntou porque então eles conversavam tão incessante sobre banalidades. Não lhe parecia possível repassa-las por mais que três vezes durante toda a vida.
O filho suspirou profundamente e explicou que sua relação com a garota vizinha era como fumar um cigarro ao esperar por um ônibus no ponto com um cérebro exausto depois de um longo dia de trabalho.
Um gesto autônomo que se faz. Que não é preciso qualquer tipo de raciocínio lógico.
Fazer por fazer só para não estar fazendo nada.
O pai perguntou então porque tal relação tinha acabado sem qualquer conflito aparente. Conversas banais não deveriam gerar conflitos - sobre o que terão conflito de princípios e ideias? Futilidades?! 
Todo cigarro apaga, né, pai?! - respondeu o filho, apenas.
A garota vizinha não tardou a se mudar. Se seu filho sabia do motivo, também não aparente, não lhe comunicou.
Uma semana depois, virou fumante.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É tão natural nossa capacidade de tecer um véu da verdade no que queremos que seja.
O nosso intelecto é intrínseco e complexo de tal forma que nossa percepção da realidade é distorcida.
Somente quando despimos nossa apreensão da realidade do véu das nossas necessidades emocionais conseguimos abstrair a verdade dos momentos.
Mas a realidade imparcial é incapaz de suprir nossa necessidade do outro.
A imparcialidade do ser seria a nossa ruína.
Todos os momentos seriam os mesmos.
Todas as pessoas seriam deléveis.
Todos os amores seriam extintos.
E o objetivo da vida deixaria de existir.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

É demais querer que seus olhos pousem só em mim?
Querer que somente a minha essência intrigue sua mente?
Que só o meu cheiro lhe desperte desejo?
Que só o meu toque lhe acalme a alma?
É demais querer possuí-la em meu domínio, minha prisão?
Sem visitação. Sem banho de sol diário. Não quero que o sol queime sua pele. Ela é minha.
Quero-a encarcerada em mim.
A necessidade do meu amor seria a sua ruína se decidisse interceder por suas vontades.
Mas, mesmo na sua loucura - na minha loucura -, prefiro viver na sua impossibilidade do que na desgraça da sua plenitude.
Ser pleno em meu amor seria o mesmo que ser o mandante e executor da sua morte.
Seu carrasco. Meu carrasco.
Como um câncer, comeria sua alma, sua força, seu brilho.
Depenaria suas asas para não mais voar para longe.
E quando tudo já tivesse se ido, quando minha sede já tivesse sido saciada, o amor iria também.
As asas que a fizeram voar até meus olhos teriam-se ido na minha ânsia de tê-la.
Meu amor pelo pássaro deixaria de existir quando pássaro você não mais fosse.
Apenas plane à minha volta, longe do meu alcance, longe do meu amor.
Ele será a sua morte.
E, por consequência, a minha.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Agenor sofria de um problema.
Não podia matar sua sede por Ella.
Queria ser metal. Fundir.
Era como um sedento que fizesse dela sua água. 
Tê-la aos sorvos.
Ela lhe trazia um alívio que somente poderia ser entendido pelos sedentos e famintos.
A urgência com a que a olhava era ânsia em satisfazer uma necessidade primal.
Ella teimava em lhe negar desta água.
Sempre se escondendo com mãos, lençóis e camisas.
Enquanto ele queria despi-la, tê-la andando livremente pelo quarto a procura de algum objeto perdido, ela insistia em cobrir-se com pedaços de farrapo inconvenientes. Ah, se ela lhe fosse bondosa e matasse sua sede! Observaria cada pequeno detalhe, trejeito. Teria-a por completo. 
Às vezes, pensava que Ella sabia do seu tormento e o torturava.
Deleitava-se no seu sofrimento e angústia. Seu sorriso por vezes lhe era maroto demais ao puxar de um lençol.
Como quem diz: você já teve o suficiente por hoje, querido.
E ele, ao olhar para o tecido onde desejava ver pele, sorria tristemente: nunca será suficiente, querida. Somente a morte mata o anseio de uma vida.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Tudo era diferente.
O modo como mexia nos cabelos sedosos, como se curvava sobre a mesa para escrever em concentração, como se recostava na cadeira com leve desleixo, como observava quando escutava, como gesticulava quando falava, como flexionava a voz, como ria das brincadeiras alheias e como ria das próprias gracinhas.
Tudo era diferente.
E ainda assim, o cheiro, o perfume.
Bebia da sua essência pelo olfato, o mais intenso de todos os sentidos.
E encontrava ali mais uma pegada do passado. Uma poça enlameada com o formato da pisada de quem já se foi.
Se foi sob a torrente de todas as decepções.
A essência que sentia nesse exato momento vinha quase que com um frio de chuva daquele verão ensolarado.
A essência poderia me tragar de volta ao passado, procurando por um sol inexistente entre as nuvens pesadas e preguiçosas em partir.
A essência, somente a essência, teria esse poder.
Mas, dessa vez, apenas pulei a poça, me livrei da lama que respingou e segui em frente.
Não seria possível que o mesmo cheiro me levasse pelo mesmo caminho, me deixasse com uma mesma pegada à frente, com as mesmas roupas encharcadas.
Não seria possível.
O caminho era outro.
O passo era outro.
Eu era outra.
Tudo era diferente.