segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A tristeza que me toca não advém da impossibilidade de futuro.
Já me acostumei com o nosso impossível. Vivo dele.
A tristeza que me consome, não deixa meus risos virem à tona, é mais cândida, profunda.
É uma dor crônica, não latente.
Todas as sensações se adormecem nesse lago opaco de lamúrias.
Lamúrias não pela impossibilidade. Já lhe disse, vivo dela.
Lamúrias por não ter externado toda aquela loucura que sentia.
Lamúrias por não ter mostrado ao mundo o quanto te amar foi belo.
Lamúrias por não ter gritado toda a ternura, a necessidade, o desejo dos dias ensolarados.
Lamúrias por ter que ouvir os mesmos gritos vindos de outros lábios.
Lábios que tocam o que antes era meu. De minha posse. Meu.
E que agora só existe na impossibilidade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Seu pai estava extremamente intrigado com a recente relação de seu filho com a vizinha da frente.
Ele passava o dia ruminando sobre o que os dois tanto conversavam incessantemente. 
Arranjavam desculpas para se encontrarem na esquina e lá ficavam, por horas a fio, discorrendo sobre o que apenas o mais imaginativo dos homens poderia imaginar.
Desde que estavam livres das obrigações diárias, fosse dia, fosse noite, fosse chuva ou fosse sol, lá estavam os dois a conversar.
Na esquina. No portão. Encostados no muro. Ou apenas em pé no passeio. 
Era sempre possível vê-los ali, sempre tão intensos um com o outro em puro papo.
Aquela garota vizinha deveria ter um repertorio de assuntos bem abrangente, o pai pensava, era a única explicação.
E além de saber sobre assuntos variados, ela provavelmente também saberia à fundo cada um deles, de tão inesgotáveis que eram as conversas.
Até que um dia, os assuntos pareceram ter findado. Os encontros foram escasseando até se tornarem raros e, logo depois, extintos.
O pai então, após passado um certo tempo de lamuriosas saudades, resolveu perguntar ao filho o que tanto lhe intrigava.
O filho respondeu que, diferentemente das impressões do pai, a garota vizinha possuía uma gama de assuntos extremamente simplória.
O pai, mais intrigado ainda, perguntou porque então eles conversavam tão incessante sobre banalidades. Não lhe parecia possível repassa-las por mais que três vezes durante toda a vida.
O filho suspirou profundamente e explicou que sua relação com a garota vizinha era como fumar um cigarro ao esperar por um ônibus no ponto com um cérebro exausto depois de um longo dia de trabalho.
Um gesto autônomo que se faz. Que não é preciso qualquer tipo de raciocínio lógico.
Fazer por fazer só para não estar fazendo nada.
O pai perguntou então porque tal relação tinha acabado sem qualquer conflito aparente. Conversas banais não deveriam gerar conflitos - sobre o que terão conflito de princípios e ideias? Futilidades?! 
Todo cigarro apaga, né, pai?! - respondeu o filho, apenas.
A garota vizinha não tardou a se mudar. Se seu filho sabia do motivo, também não aparente, não lhe comunicou.
Uma semana depois, virou fumante.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É tão natural nossa capacidade de tecer um véu da verdade no que queremos que seja.
O nosso intelecto é intrínseco e complexo de tal forma que nossa percepção da realidade é distorcida.
Somente quando despimos nossa apreensão da realidade do véu das nossas necessidades emocionais conseguimos abstrair a verdade dos momentos.
Mas a realidade imparcial é incapaz de suprir nossa necessidade do outro.
A imparcialidade do ser seria a nossa ruína.
Todos os momentos seriam os mesmos.
Todas as pessoas seriam deléveis.
Todos os amores seriam extintos.
E o objetivo da vida deixaria de existir.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

É demais querer que seus olhos pousem só em mim?
Querer que somente a minha essência intrigue sua mente?
Que só o meu cheiro lhe desperte desejo?
Que só o meu toque lhe acalme a alma?
É demais querer possuí-la em meu domínio, minha prisão?
Sem visitação. Sem banho de sol diário. Não quero que o sol queime sua pele. Ela é minha.
Quero-a encarcerada em mim.
A necessidade do meu amor seria a sua ruína se decidisse interceder por suas vontades.
Mas, mesmo na sua loucura - na minha loucura -, prefiro viver na sua impossibilidade do que na desgraça da sua plenitude.
Ser pleno em meu amor seria o mesmo que ser o mandante e executor da sua morte.
Seu carrasco. Meu carrasco.
Como um câncer, comeria sua alma, sua força, seu brilho.
Depenaria suas asas para não mais voar para longe.
E quando tudo já tivesse se ido, quando minha sede já tivesse sido saciada, o amor iria também.
As asas que a fizeram voar até meus olhos teriam-se ido na minha ânsia de tê-la.
Meu amor pelo pássaro deixaria de existir quando pássaro você não mais fosse.
Apenas plane à minha volta, longe do meu alcance, longe do meu amor.
Ele será a sua morte.
E, por consequência, a minha.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Agenor sofria de um problema.
Não podia matar sua sede por Ella.
Queria ser metal. Fundir.
Era como um sedento que fizesse dela sua água. 
Tê-la aos sorvos.
Ela lhe trazia um alívio que somente poderia ser entendido pelos sedentos e famintos.
A urgência com a que a olhava era ânsia em satisfazer uma necessidade primal.
Ella teimava em lhe negar desta água.
Sempre se escondendo com mãos, lençóis e camisas.
Enquanto ele queria despi-la, tê-la andando livremente pelo quarto a procura de algum objeto perdido, ela insistia em cobrir-se com pedaços de farrapo inconvenientes. Ah, se ela lhe fosse bondosa e matasse sua sede! Observaria cada pequeno detalhe, trejeito. Teria-a por completo. 
Às vezes, pensava que Ella sabia do seu tormento e o torturava.
Deleitava-se no seu sofrimento e angústia. Seu sorriso por vezes lhe era maroto demais ao puxar de um lençol.
Como quem diz: você já teve o suficiente por hoje, querido.
E ele, ao olhar para o tecido onde desejava ver pele, sorria tristemente: nunca será suficiente, querida. Somente a morte mata o anseio de uma vida.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Tudo era diferente.
O modo como mexia nos cabelos sedosos, como se curvava sobre a mesa para escrever em concentração, como se recostava na cadeira com leve desleixo, como observava quando escutava, como gesticulava quando falava, como flexionava a voz, como ria das brincadeiras alheias e como ria das próprias gracinhas.
Tudo era diferente.
E ainda assim, o cheiro, o perfume.
Bebia da sua essência pelo olfato, o mais intenso de todos os sentidos.
E encontrava ali mais uma pegada do passado. Uma poça enlameada com o formato da pisada de quem já se foi.
Se foi sob a torrente de todas as decepções.
A essência que sentia nesse exato momento vinha quase que com um frio de chuva daquele verão ensolarado.
A essência poderia me tragar de volta ao passado, procurando por um sol inexistente entre as nuvens pesadas e preguiçosas em partir.
A essência, somente a essência, teria esse poder.
Mas, dessa vez, apenas pulei a poça, me livrei da lama que respingou e segui em frente.
Não seria possível que o mesmo cheiro me levasse pelo mesmo caminho, me deixasse com uma mesma pegada à frente, com as mesmas roupas encharcadas.
Não seria possível.
O caminho era outro.
O passo era outro.
Eu era outra.
Tudo era diferente.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Doralices

Eu te disse, Doralice, que não andasse por aquelas bandas.

Não bebesse daquela água.
Não deitasse naquela relva.

Eu te disse, Doralice, que não se enganasse pelos olhos.

Não se deleitasse com o certo toque.
Nem se inebriasse pela particular essência.

Eu te disse, Doralice, que não se deixasse levar pelas vontades.

Não se entregasse aos devaneios.
Não se iludisse com os sonhos.

Eu te disse, Doralice, assim como tantos outros:

Andar pelas sertanias que não domina é andar pelo coração de quem não te ama. 

Eu te disse, Doralice, mas cansei de dizer:

Desbravar fronteiras é para os bandeirantes, não para Doralices.