terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Não se sinta melhor nem pior que ninguém.
Você é único. O que você tem a oferecer é único.
Seus olhos só você têm, seu olhar, seus lábios, seus gestos e trejeitos, sua história de vida, sua forma de raciocínio, suas manias, seus sonhos e ambições.
Você é um conjunto único, completo e capaz. Perfeito em sua complexidade. Infindável em seu potencial.
Jamais existirá outro ser igual a você por mais parecido que possa ser.
Então, valorize-se. Valorize ao outro. Valorize as diferenças.
Não faça comparações. Não permita ser comparado.
É impossível comparar uma unicidade com a outra.
Não seja medíocre ao querer se encaixar em padrões tão superficiais e sem significados. Padrões temporais e inconstantes. Padrões que ferem, discriminam, insultam, repelem, afastam.
Seja único. Nem melhor, nem pior.
Apenas único.
Você não se cansa?
Você não se cansa das futilidades? Das mesquinharias? Do consumismo exacerbado?
Do ciclo vicioso em que vivemos de: não termos o bastante e por isso não sermos o bastante?!
Você não se cansa dos mesmo assuntos? Do mesmo enredo que sua vida segue, seja no ponto de ônibus, na fila do supermercado, na academia, na livraria?
Você não se cansa de viver com uma viseira moral e criativa? De ser incompleto culturalmente?
Você não se cansa de sobreviver através dessa sociedade ao invés de viver seus anseios como bem entender?
Você não se cansa de ser medíocre? De ser covarde?
Você não se cansa de aceitar?
Você não se cansa de ser apenas um expectador em sua própria vida? De não ter forças nem para trocar de canal?
Você não se cansa de não viver? De não sentir? De não ser?
Você não se cansa?

domingo, 8 de dezembro de 2013

A brisa soprava suave.
A Kombi continuava estagnada.
E eu, ali, continuava diferente. 
Não simplesmente diferente no sentido de ser diferente.
Mas no sentido de continuar diferente, mudando à todo momento.
Constância na mudança.
O mudar sendo constante.
O não-permanecer constante.
A constância na mudança.


Sempre serei eu mesma, mas nunca serei a mesma.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A angústia parece ser um estado de espírito inerente ao ser humano.
Toda vida parece ser angustiada.
O homem possui um sofrimento que advém da sua própria existência e consciência de si mesmo.
Consciência de que, no final das contas, não é tão diferente assim do cachorro que vaga pelas ruas sem rumo.
Consciência de suas limitações terrenas quando vê um pássaro voando sobre sua cabeça.
Consciência de que por mais que faça, por mais que grite, por mais que crie, nada mais é que um indigente nas páginas da História.
E que, até mesmo a História, sua própria criação, nada mais é que finita perante ao Universo.
A insignificância do homem perante ao Todo é tão aterradora que o homem vaga pelo mundo angustiado.
Em sua busca desenfreada pela significância, o homem cria deuses que justifiquem o que lhe foge à compreensão, constrói sistemas que lhe deem um pseudo-objetivo de ser, inventam novas tecnologias no intuito de se sentir mais dono de sua pequena verdade.
O homem entra em consonância com o Universo somente através da Arte.
Quando toca, quando pinta, quando esculpe, quando canta, o homem se torna um conduíte de toda a grandeza do que é exterior à ele.
Mas, ainda assim, até mesmo a Arte, que é a forma do Universo se mostrar perante à nós, à nossa insignificância, se torna obsoleta ao ser tão finita quanto nossa própria existência.
Chegará o tempo no qual o homem deixará de existir. E o Universo nada mudará com isso.
O homem, em sua vã ignorância perante à grandeza do Universo, é tão efêmero quanto a vida que julga comandar.
O homem é o único ser conhecido por ele mesmo que vive com consciência de viver, que atribui significado à sua própria insignificância.
E essa consciência o angustia, pois ele é sem ser.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Agenor vivia em estado constante de agonia.
Gemia ante a escuridão que ocupava sua mente.
Debatia-se contra as amarras invisíveis que cegavam sua arte.
Parecia que a própria Terra prendia sua inspiração na lava que continha em núcleo.
Desde que seus pensamentos e anseios se viram livres de sua paixão por Ella, ele estava em um constante hiato.
Era um hiato de paz. Calmaria. Plenitude.
Um hiato de arte.
As Artes pareciam tê-lo abandonado à própria sorte. Vagando sem rumo em um mar de desesperança.
Não conseguia mais externar a beleza do que sentia.
Não conseguia mais descrever o que antes enxergava na vida.
A vida não deixara de ser bela. Ele apenas não enxergava a beleza que nela havia.
Seus olhos estavam daltônicos devido a sua mente sã. 
Sã da embriaguez da paixão.
Agenor não era infeliz, muito menos feliz. 
Ele vivia em hiato.
Hiato em não amar.
Era um boêmio sem dinheiro para o drink da esquina, era um ditador sem a frieza do poder que continha, era um camaleão no vácuo do espaço - incapaz de se fundir ao fundo de astros.
Agenor era um artista sem paixão.
Uma vela apagada em plena escuridão, sozinha, fria e sã.
O drink que bebia era fiado, a arte que queria era perdida.
Ele olhava o copo da embriaguez, querendo beber dali o que bebia da paixão.
Mas como não era possível:
- Garçom, me traz mais um copo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Crônica I

Quando cheguei naquela cidadezinha de interior, me encantei por aquele céu límpido e imenso. As noites eram iluminadas pelo brilho de incontáveis estrelas mesmo quando a lua resolvia tirar férias.
Os moradores eram simples, puxavam o r e chamavam um ao outro pelo primeiro nome. Extremamente receptivos, sorriam até mesmo aos estranhos estudantes que lá chegavam, ansiosos para exercerem a nova função de universitários.
Era estranho viver em uma cidade tão pacata em relação à Grande BH. Trânsito não parecia ter chegado lá ainda. Faixa de pedestre vi somente uma e em uma rua interditada há tempos atrás. O shopping era uma grande loja que vendia desde sapatos, botinas, relógios, meias à calcinhas, brincos e roupas de cama.
Foi naquela cidade de interior que aprendi a valorizar a calmaria de um dia no qual não se escuta uma buzina sequer. Naquela cidade, tão subestimada por olhos estrangeiros, residia um pouco do segredo para a felicidade: calmaria.
Calmaria para andar, calmaria para falar, calmaria para sorrir. O sorriso dos nativos - como os universitários chamavam os moradores - era lento, parecia surgir de dentro da alma com manha, preguiçoso em vir à tona, mas fiel em seu objetivo. O riso deles era fácil e aconchegante. Riso de gente que não sabe o significado de estresse. Delicioso. Lá eu me estressava com a lentidão das coisas.
Todos os nativos possuíam uma certa arte no falar. Vindo deles era natural, correto, esperado.
Eles não só puxavam o r, mas possuíam seu próprio modo de organizar as sentenças. Tinham um gosto especial pelos pronomes oblíquos. Só depois de muito tempo fui perceber que falávamos de modo diferente, de tão natural era o sotaque vindo deles.
A expressão que me chamou atenção adveio de uma situação peculiar.
Lá estávamos nós, universitários mais que dispostos - não pergunte a que -, socializando em uma reunião - vulgo farra -, quando uma das nossas amigas nativas veio reclamar das investidas de um certo rapaz.
- Tô eu lá, quietinha na fila do banheiro, o sujeito já vem me encostando - ela reclamava.
Aquela expressão me assustou. "Me encostar". Peculiar. Pude imaginar perfeitamente o certo rapaz segurando-a pelos braços como se ela fosse uma boneca de trapos e a encostando na parede, como se encosta uma vassoura, ou uma tábua, ou qualquer outro tipo de coisa que precise ficar encostada para ficar em pé - que, de certa forma, era o caso dela depois das diversas ingestões alcoólicas.
Depois disso percebi que todos aqueles sorrisos que me receberam de modo tão caloroso, falavam todos do mesmo jeito: vou te encostar, chegou me encostando...
E por mais que a imagem da vassoura encostada na parede sempre me viesse à mente quando ouvia essas expressões, eu conseguia abstrair um sentido diferente entre te encostar e encostar em você. A primeira era específica ao contato de uma pessoa com a outra.
Os nativos conseguiram mudar a estrutura da sentença e com isso atribuir um novo significado a ela. Um significado específico atribuído à uma situação específica num contexto específico.
Era lindo. Era arte no falar.
E lá ficava eu, nas reuniões sociais, não querendo que alguém encostasse em mim, mas que alguém me encostasse.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desfaçam-se de seus pré-conceitos.
Limpem-se de suas pré-concepções.
Livrem seus olhos do véu da incompreensão.
Abram a mente.
Não busquem igualdade, busquem aceitação das diferenças.
O outro não é um espelho no qual deve se encontrar.
O outro são as possibilidades de caminhos que você poderia ter tomado. 
O outro lhe é incompreensível por não ser você, não por ser o outro.
Aceite o medo que tem do desconhecido e seja corajoso para desbravá-lo de braços abertos.
Tenha sede pelo desconhecido e aceite que, somente nele, a Redenção se encontra.